É com muita alegria que publico um post do Carlos aqui no Milhas e Destinos. Ele é assíduo colaborador do Meu Milhão de Milhas, do meu querido colega e amigo Guilherme – recomendo a todos a leitura diária do MMdM. Bom, mas sem mais delongas, segue o post do Carlos que, como sempre, está sensacional! Aproveitem!

Após a sequência de terremotos e tsunamis que assolaram o mercado de milhas brasileiro, o planejamento para o melhor uso dos pontos se tornou bastante complicado. É bastante provável que a sequência de abalos ainda não tenha chegado ao seu fim e tenhamos novos desastres até o fim do ano.

Recapitulando o annus horribilis, em março o Victoria reajustou significativamente sua tabela sem ter feito anúncio prévio oficial ou divulgação dos novos valores. Em maio, Latam/Multiplus migrou do sistema Amadeus para Sabre e, deste então, o funcionamento do Multiplus ficou bastante comprometido, com grande aumento dos valores nos resgates em voos Latam e indisponibilidade de uso de uma série de parceiros OneWorld.

E o mês de outubro se mostrou como o mês do desgosto (não é agosto mais): Amigo aplicou um suave reajuste médio de 130% em seus resgates (média comparando valores da tabela antiga com a nova mais abaixo), isto com aviso prévio secreto de 30 dias. E o programa continua com funcionamento limitado para resgates, tanto pelo mau funcionamento do seu sítio eletrônico quanto de seu sistema, impossibilitando tanto o uso de parceiras (SAS, EVA, Air China) quanto de rotas e classe específicas.

Não querendo ficar de fora, o TudoAzul também anunciou mudanças no programa, com impacto sobre o acúmulo de milhas e qualificação e na quantidade de resgates para passageiros distintos. A tabela de resgates, como já era uma das piores do mercado na quantidade exigida de pontos, não sofreu modificações.

Latam/Multiplus, não bastando o funcionamento capenga de seu sistema e atendimento desde maio, tanto online quanto por telefone, anunciou também a desvalorização de sua tabela de resgates e dificultou enormemente a qualificação no programa.

Faltou apenas o Smiles para completar a festa, mas ainda há tempo até o final do ano. A desvalorização da tabela já ocorre de forma habitual, porém em baixos incrementos. Por ser uma tabela flutuante (na verdade, não existe tabela), é possível que haja uma majoração geral. E ainda acho provável que a qualificação no programa seja bastante dificultada.

Com os generosos e habituais bônus de transferência oferecidos pelos cartões de crédito brasileiros, a utilização de programas de milhagens estrangeiros não era, do ponto de vista econômico, tão atrativa. Com este novo panorama, é possível que tenha havido uma mudança.

Levantei, então, os valores cobrados por vários programas, para comparação. Nos que publicam tabela, era fácil a obtenção do valor. Mas nos sem tabela (Amigo e Smiles), o valor baseou-se em pesquisas práticas, utilizando trechos mais distantes. Por exemplo, para América do Norte, destinos como Portland, Vancouver e Las Vegas e na Europa, Moscou, Estocolmo ou Varsóvia.

No caso específico do Multiplus, a tabela apresenta valores mínimos e máximos. Peguei os valores máximos, que acredito serem os que mais vão aparecer, ainda mais para distâncias maiores entre regiões. Não fiz a soma de valores em nenhum caso, mesmo para a Ásia que, teoricamente, vai sempre transitar por uma terceira região, peguei o valor da tabela da região.

Na definição dos valores das regiões, quando as tabelas apresentavam vários valores por causa das diferentes divisões, utilizei os maiores. 

Pelos motivos acima, é possível que algumas rotas específicas apresentem valores mais baixos que o levantado, mas seria impossível levar em conta todas as possibilidades e montar uma tabela legível. Algumas rotas não possuem qualquer tipo de voo disponível (principalmente na primeira classe), mas os valores servem, de qualquer forma, para comparar o que cada programa costuma cobrar. E, novamente na primeira classe, como o Amigo só tarifa agora com opções reais, os valores que serão cobrados ficaram uma incógnita, já que não havia nada disponível para lugar nenhum. TudoAzul e Smiles foram eliminados nesta classe por não oferecem opções.

Isto posto, seguem abaixo os valores para resgate nas três classes. Os valores em vermelho são os menores e os em roxo, maiores.

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Como fica claro, o programa Krisflyer, da Singapore Airlines, possui, em ampla maioria, os melhores valores de resgate, independentemente da classe ou região de destino (14 vitórias em 20 disputas). Infelizmente, em linha com o ano, o Bradesco fez o enorme favor aos usuários dos cartões American Express de eliminar os vários parceiros internacionais do cartão, que transferiam na proporção 1:1. Para acumular pontos neste programa, infelizmente somente com um cartão de crédito emitido no exterior ou voando Star Alliance.

No extremo oposto, vemos uma feroz disputa entre Smiles e Amigo em quem tem os piores valores para o cliente. Pegando nas tabelas de econômica e executiva, é um duopólio de ruindade, tendo o Amigo conseguido a façanha de se sagrar como a pior tabela para o consumidor, vencendo o Smiles por 10 a 5, em 14 possibilidades. Isto apenas ressalta o completo desrespeito com que o cliente do Amigo foi tratado pois, anteriormente a esta mudança oculta, em apenas 1 das 14 possibilidades o Amigo possuía o pior valor de tabela.

Entre extremos, vemos que os programas estrangeiros SEMPRE possuem valores mais baixos que os cobrados pelos programas nacionais. E, dentre os nacionais, Multiplus apresenta os valores mais baixos, com a surpresa do Tudo Azul ter se tornado competitivo em alguns casos, apesar das limitadas opções de parceiros.

Se fosse fácil transferir ou acumular pontos nos programas estrangeiros, a escolha seria bastante simples. Mas, além da rara ou nula possibilidade de acumular gastos em cartão de crédito nos estrangeiros, há ainda outro fator a ser levado em conta: os bônus de transferência.

Como toda mudança no setor, ainda não dá para prever como se comportarão os referidos bônus. Eu computo todas as ofertas em uma tabela e já foi possível perceber uma mudança na oferta dos bônus, tanto em termos de frequência quanto de valores, de 2017 para 2018. Com as várias reestruturações ocorridas nos programas de milhagem neste ano, ficou ainda mais incerto como será o comportamento do mercado.

De qualquer forma, utilizei os melhores e não-únicos bônus ocorridos neste ano para uma nova comparação entre programas. No caso do Multiplus, a escolha foi mais complicada porque o programa adotou um teto máximo de apenas 30k pontos para os bônus obtidos com seu Clube de milhagem. Adotei, então, um percentual de 40% para este caso.

Nas tabelas, também coloquei deságio para os programas estrangeiros que possuem esta perda na transferência de pontos. Especificamente, o programa Livelo transfere para o programa Mileage Plus, da United, com 50% de deságio. E para o programa Lifemiles, o deságio é de 30%, a partir de dezembro deste ano. Esta data já foi adiada uma vez e espera-se que o seja novamente. De qualquer forma, quem quiser comparar os valores sem deságio, basta olhar nas tabelas anteriores.

Feito este preâmbulo, vamos ao que interessa:

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Bônus levado em conta, vemos um claro predomínio de um programa semi-estrangeiro (ou semi-nacional) e que havia se tornado maldito, no começo do ano, o Victória TAP. Com 16 vitórias em 20 possibilidades, fica clara a vantagem do Victória, com uma série de restrições.

O programa promoveu, em 2018 e também 2017, uma série de desvalorizações, mudanças de tabelas, regras e taxas cobradas, algumas sem qualquer tipo de aviso prévio. E havia passado um longo período sem oferecer bônus de 100%, tendo retomado a oferta neste ano para Livelo e CEF, com teto máximo de razoáveis 200k pontos.

É interessante que, nas 4 vezes em que o Victória não possuía o menor valor, o ganhador era o Krisflyer, sem qualquer bônus de transferência, e nas outras possibilidades o programa normalmente ficava no top3, o que ressalta sua competitividade e, mais uma vez, o estrago produzido pelo Bradesco nos cartões Amex.

Não indiquei os piores valores nesta tabela por não achar justo comparar valores de programas que recebem bônus com outros que sofrem deságio. Mas é interessante ressaltar, novamente, que antes das mudanças, o programa Amigo era o vencedor em 12 das 20 possibilidades. Agora, não consegue ficar sequer no top3 de qualquer opção.

Nota-se que há uma maior diversificação entre as opções intermediárias. Nos programas nacionais, há um rodízio entre Multiplus, Smiles e, pasmem!, Tudo Azul. Amigo consegue a proeza de não ter valor menor em nenhum destes casos.

No geral, o Livelo continua sendo a melhor opção para acúmulo ou compra de pontos, tanto pela flexibilidade de alternativas quanto por oferecer os melhores bônus de transferência. Mas esta comparação também me leva a pensar em duas estratégias semelhantes, para fugir ou criar alternativas aos volúveis programas nacionais. Na primeira, o cartão de crédito Santander AAdvantage Black passa a ficar um pouco mais atrativo, acumulando 2,0 direto no programa da American. E a segunda, mais trabalhosa e incerta, é tentar conseguir um cartão de crédito americano, da Amex ou Citi, que transferem para o Krisflyer e outros programas estrangeiros.

Os anos de ouro para uso dos programas de milhagem terminaram em outubro de 2018. Espero que esta data não marque o início de um período sombrio e de incertezas para os milheiros brasileiros.

Agradeço imensamente a você, Carlos, pela colaboração valiosa e espero poder sempre contar com suas análises aqui no Milhas e Destinos.

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