Nessa semana que passou, foi noticiado que tanto a ANA All Nippon Airways como a JAL Japan Airlines terão voos regulares ligando Tóquio a Vladivostok. A notícia em si é interessante pela coincidência do anúncio de duas companhias rivais e também pela rota “exótica”.

Entretanto, há um viés ainda mais interessante na história e ele tem relação direta com os modelos de resgate de bilhetes com milhas que os programas trabalham.

Vamos dar uma olhada no mapa:

Vladivostok é uma cidade no leste da Rússia, quase na fronteira com a Coreia do Norte e com a China. Tóquio, por sua vez, é a capital do Japão, país asiático.

Seguindo o modelo de resgate por regiões – adotado pelo AAdvantage para as parceiras, por exemplo – a Rússia fica na Europa, sem exceções.

Esse modelo apresenta uma tabela fixa, exigindo uma quantidade invariável de milhas para viagens entre as regiões A e B, independentemente de onde ficam os pontos de origem e destino entre essas regiões.

Assim, teoricamente, eu poderia resgatar um bilhete do Rio para Vladivostok em classe executiva por 87.500 milhas AAdvantage. Eu poderia chegar lá em 3 voos, percorrendo pouco mais de 11.000 milhas:

  1. Rio – Londres (British Airways)
  2. Londres – Moscou (British Airways)
  3. Moscou – Vladivostok (S7 – empresa russa membro da Oneworld que opera majoritariamente voos domésticos)

Eu até tentei cotar online – descobri que é possível resgatar bilhetes da S7 no site do AAdvantage (oh, LATAM, onde estás?) – mas não consegui.

Mas o fato é que, de acordo com as regras do AAdvantage, eu poderia percorrer essas 11.000 milhas em classe executiva por 87.500 milhas.

Agora, para ir de Vladivostok para Tóquio, seguindo o modelo de resgate por regiões com tabela fixa, eu estaria indo da Europa para a Ásia 1 (Japão e Coreia do Norte). Para fazer esse voo de 686 milhas na classe executiva da JAL, eu gastaria 70.000 milhas AAdvantage!

Percebem como, nesse caso, esse modelo não faz o menor sentido?

Logo, neste tipo de situação, o mais razoável seria o modelo de resgate por distância – ou faixas de distância – como faz o British Airways Executive Club, por exemplo. O Smiles aplica a mesma lógica para voos da Qatar Airways e a Korean Air, apesar de não divulgar publicamente as faixas de distância utilizadas.

Esse modelo é extremamente desvantajoso para resgates de longa distância, por óbvio. O BAEC, por exemplo, no seu mais recente reajuste, inflacionou muito mais os valores para os trechos mais curtos, que eram o sweet spot do programa, e aumentou marginalmente os resgates para voos mais longos.

Entretanto, a indústria dos programas de milhas está caminhando para o modelo de resgate com tabela flutuante e suas derivações, como a tabela flexível, cunhada pelo TAP Miles&GO.

O modelo de resgate com tabela flutuante tem como base o valor em dinheiro do bilhete resgatado, com influência da época do ano, da distância, de eventuais promoções e das variações do mercado.

Neste modelo, não há um patamar mínimo ou máximo – é só verificar a quantidade de pontos que o LATAM Fidelidade cobra em voos LATAM, por exemplo.

Já o modelo de tabela flexível, nos termos em que foi idealizado pelo Miles&GO, também tem influência do valor monetário do bilhete, mas conta com um piso e um teto. Ou seja, a variação é restrita em patamares pré-estabelecidos pelo programa.

Uma situação muito comum nesse tipo de modelo é que a quantidade de milhas necessárias para a emissão de bilhetes em cabines premium é exponencialmente maior do que para bilhetes em classe econômica, podendo variar em 200%, 300%, 400% – o céu é o limite.

Novamente, é possível trazer o exemplo do LATAM Fidelidade em voos LATAM. É fácil encontrar bilhetes para a Europa em econômica por 40.000 pontos o trecho. Já em business esse valor é 3, 4, 5 vezes maior.

Já no modelo de resgate por regiões, que é regido por tabela fixa, me parece que essa discrepância não é tão acentuada. No AAdvantage, o trecho Brasil – Europa em econômica é 50.000 milhas. Em executiva, como mencionei acima, são 87.500 milhas – cerca de 72% a mais. Nunca vi uma business sair por 4 ou 5 vezes o preço da econômica, mas não tenho dados de outros programas que adotam o mesmo modelo para fazer uma afirmação peremptória.

Todos os modelos apresentados têm suas vantagens e desvantagens, dependendo do tipo de bilhete que se quer emitir.

Eu particularmente prefiro o modelo de resgate por regiões com tabela fixa, pois eu consigo planejar com mais eficiência e segurança. Saber de antemão a quantidade de milhas necessárias facilita demais a organização da viagem, especialmente quando envolve diversos trechos e bilhetes. Entretanto, geralmente é preferível emitir trechos curtos no modelo de resgate por distância.

De qualquer modo, é sempre bom conferir o preço da passagem paga, principalmente quando se trata de classe econômica. Às vezes, na ponta do lápis, é melhor pagar do que usar as milhas.

Faltou algum modelo? Qual modelo de resgate que vocês preferem e em que casos?