Há cerca de oito meses atrás, eu publiquei um post em que questionava se a Smiles era o melhor programa de milhas no Brasil. À época, a empresa havia feito uma série de mudanças extremamente benéficas aos seus clientes que a colocaram em grande vantagem junto ao seu maior concorrente, o LATAM Fidelidade. Em seguida, escrevi um outro post falando sobre a pressão que a Smiles e o Livelo estavam fazendo sobre o Fidelidade e como o programa estava inerte frente às novidades do mercado.

Pois bem, desde então algumas tendências puderam ser verificadas. A primeira, e mais preocupante, é a inflação de milhas no mercado.

Vejo pessoas comentando – aqui e em outros blogs – que têm 500, 600, 700.000 milhas em determinada companhia – isso sem ser passageiro frequente. O acúmulo tem relação com compras de milhas com bônus ou descontos, transferências bonificadas de cartões de crédito, compra de pontos de cartão de crédito, associação aos clubes de milhas, etc.

Esse tipo de prática, no Brasil, alcançou uma proporção e volume que não é comum em outros mercados, como o americano, por exemplo, em que há muita oferta de milhas bônus.

Um exemplo dessa inflação é a promo do Itau Sempre Presente e Multiplus de ontem: muita gente está considerando comprar 100.000 pontos do Sempre Presente por R$ 3.500,00 para transferir para a Multiplus com 60% de bônus, gerando 160.000 pontos de uma tacada só em uma única promo do ano.

Isso torna possível a emissão de um bilhete ida e volta na executiva para a América do Norte por cerca de USD 1.000. Esse cliente provavelmente vai aproveitar outras promos durante o ano, gerando uma carteira com esses 400.000, 500.000 pontos no ano.

Não há nada de errado com o comportamento do consumidor: a oportunidade foi dada pelas empresas e os clientes vão aproveitar.

Entretanto, não há programa de milhas que resista a isso. O número de assentos nas aeronaves continua o mesmo, a disponibilidade nas parceiras continua a mesma, mas as empresas passam a ter um passivo enorme, pois são obrigadas a honrar esses pontos. E como fazê-lo?

Como não há qualquer regulação em relação a esses programas, isso leva a uma segunda tendência: a desvalorização das milhas/pontos, com o aumento das milhas necessárias para resgate.

Vejamos o caso emblemático da Smiles: a empresa que tinha o melhor programa há menos de um ano hoje tem um dos piores (não conheço bem o TudoAzul)  – pelo menos no que diz respeito aos resgates de bilhetes para voos internacionais com as parceiras, principalmente em cabines premium.

Os bons resgates são raros, a taxa para cancelamento de bilhetes emitidos com milhas subiu para R$ 350,00 por passageiro, houve a introdução de tarifas comerciais sem qualquer aviso aos clientes e por aí vai.

O TAP Victoria seguiu o mesmo caminho: desvalorizou exclusivamente os resgates com origem/destino no Brasil para voos em suas aeronaves e deu um minguado prazo de 7 dias para os consumidores brasileiros tomarem uma providência. Blogueiros reclamaram, muita gente protestou nos comentários, a empresa está ciente (me mandou um tweet), mas a repercussão na tomada de decisões do Victoria foi zero.

Voltando aos programas brasileiros, o LATAM Fidelidade também tem uma tabela completamente aleatória quando envolve os voos LATAM. Um Brasil – Londres na executiva da empresa pode sair por 240.000 pontos, mas na tabela das parceiras Oneworld é possível achar o mesmo trecho por 100.000 pontos voando British Airways. Esquizofrenia total.

Além disso, os programas chileno e brasileiro vão ser unificados, o que vai, provavelmente, levar a uma atualização da tabela de resgates, com possíveis reajustes. Eu acho que o trecho para a Ásia em executiva por 110.000 pontos com as parceiras Oneworld não vai durar muito tempo …

Nós até temos uma empresa cujo produto é somente esse: a venda e transferência de milhas e pontos para programas de milhas e para aquisição de produtos em geral – a Livelo. A Livelo tem parceria com todos os programas de milhas brasileiros, comercializando pontos/milhas na proporção 1:1, e com programas estrangeiros.

Essa negociação com o MileagePlus, Flying Blue, BAEC, Etihad Guest etc, que foi entabulada durante 2017, mostra como esses programas enxergam o valor do ponto Livelo (que é o valor da milha/ponto Smiles, TudoAzul, Fidelidade e Amigo, porque todos têm a proporção 1:1): ele vale a metade do que ele diz que vale, já que a proporção é 2:1, à exceção do TAP Victoria.

Fato é que o mercado está super-inflacionado e a solução mais cômoda para os programas de milhas é desvalorizar a moeda que nós, consumidores, temos nas mãos. Com uma canetada as nossas milhas podem valer amanhã metade do que valem hoje – vide Smiles e Victoria. As empresas têm total controle da situação: elas são o Banco Central da sua própria moeda.

É fato que os programas são verdadeiros cash cows das companhias aéreas, tendo um lucro muito superior ao delas. Em alguns casos, são os programas de milhas que enviam recursos para que as companhias aéreas se mantenham funcionando adequadamente. Então, é no interesse dos programas de milhas que haja essa explosão na compra e na transferência de pontos dos cartões. As promoções vão continuar para seduzir os consumidores a adquirirem mais e mais milhas. Mas como eu disse: essa “farra” não se sustenta nos parâmetros atuais.

Não há como atestar o que vai acontecer nesse ano no mercado de milhas no Brasil. Não trabalho com nenhum programa de milhas, não tenho contato com ninguém que efetivamente tenha peso nas decisões gerenciais e não tenho bola de cristal.

Mas tenho a impressão que teremos algumas desvalorizações pela frente. Todo cuidado é pouco.

Já dizia o ditado popular: devagar com o andor, que o santo é de barro.