Toda viagem tem alguma coisa de interessante pra gente contar pros amigos e pra família. Então, vou aproveitar o espaço pra relatar três histórias que me aconteceram e que têm algum coisa a ver com o tema do blog. Esse post contém a primeira das histórias.

Uma máxima própria é que não há viagem que eu faça, qualquer que seja a sua duração, destino e época do ano, que eu sempre encontro brasileiro. Carioca, paulista, mineiro, nordestino, sulista – somos 200 milhões e estamos espalhados pelo mundo. Já encontrei colega de trabalho no interior da Islândia no inverno, só pra ilustrar a minha experiência.

Dessa vez, um dos 200 milhões estava no meu voo da Korean entre Frankfurt e Seoul. Mas parece que o sujeito não compartilha da minha visão: o deck superior do B747-8i tinha só 5 passageiros e a probabilidade de 40% deles serem brasileiros estava no campo do impossível para esse senhor.

Mas no campo do impossível também estava que ambas as torres do World Trade Center seriam derrubadas em um ataque terrorista e a história está aí pra esfregar na nossa cara que a gente não pode nunca desprezar aquele 0,000000000000000000000000001% de chance de algo acontecer.

Era um senhor de meia idade que já estava lá quando eu cheguei e, por uma coincidência, estava na mesma fileira que eu, só que no canto oposto. Ele estava com um iPhone daqueles gigantescos e com fones de ouvido. E o que ele estava fazendo? Ouvindo música? Vendo um vídeo no youtube?

Não, ele estava conversando com uma mulher numa video call. Acho que era a mulher dele, mas podia não ser e isso não importa. O que importa era o teor da conversa que se estendeu até mandarem desligar o aparelho porque estávamos em procedimento de partida.

A desenvoltura do bate-papo indicava que o passageiro tinha feito a seguinte equação mental: voo coreano saindo da Alemanha no inverno, classe executiva, deck superior de um jumbo, 5 passageiros = só eu de brasileiro aqui e ninguém entende o que eu estou falando.

Errado.

Gente do céu, o homem falava tudo que ele queria fazer com a mulher quando chegasse em casa. E nenhuma das coisas envolvia ir ao cinema, visitar um amigo ou até mesmo quitar o financiamento da casa própria.

Era uma conversa de deixar qualquer vídeo pornô postado no twitter do presidente passar na novela das 6 da tarde. Se eles praticam metade do que estava sendo relatado, eu não entendo como eles ainda estão vivos e bem.

E para piorar a situação, vocês sabem que quando a gente está com fones de ouvido fica mais difícil ajustar o volume da voz. Ele podia estar pensando que estava sussurrando, mas na verdade estava usando o tom de voz ideal para anunciar uma criança perdida em um bloco de carnaval.

Desesperada de tanto tomar golden shower, eu fiz algo impensável: eu gritei. Sim, gritei. Só para vocês terem uma ideia, eu tenho uma voz tão potente que não preciso de microfone para dar palestra – nesse nível. Então, quando eu gritei “Eu entendo português!!!!” todos os 348 passageiros e tripulantes em ambos os decks do avião ouviram, menos o senhorzinho com o headphone inserido no canal do ouvido babando a jovem loura de cabelos compridos e seios que transbordavam a tela do celular.

Involuntariamente envolvida na ativíssima vida sexual alheia, me levantei, fui até a comissária e expliquei a situação. Pedi para ir para outro assento bem longe daquele bate-papo carnal, afinal, eu não sou obrigada, né?

Para meu espanto, até a comissária – que não entendia patavina de português, mas que não era cega – já tinha notado que a conversa estava mais pra Brasileirinhas do que para TV Senado. Imagino ela passando pelo corredor e espiando na tela do iPhone no canto do olho e dando de cara com a interlocutora do passageiro com a boca aberta e língua de fora …

Cinco minutos depois veio a chefe de cabine me pedir desculpas pelo comportamento do passageiro (como se a tripulação ou alguém tivesse alguma coisa a ver com isso) e me oferecer uma bebida ou “anything you need”.

Sabe o que eu need, Dona Chefe de Cabine? Que as pessoas acreditem que tem sempre, sempre, sempre um brasileiro por perto onde quer que seja. Isso é importantíssimo na hora de discutir a vida sexual pelo telefone dentro de um avião …

Alguém já passou por esse tipo de constrangimento em viagem?