O LATAM Fidelidade anunciou mudanças que vão impactar e muito a obtenção de status pela sua base de clientes no Brasil. A LATAM se tornou membro da Oneworld depois da fusão com a LAN Chile e é a representante da aliança no Brasil, com mais de 10 milhões de clientes Fidelidade.

A empresa decidiu abraçar de vez o modelo americano de obtenção de status com pitadas de psicopatia. Digo isso por que as americanas exigem um gasto mínimo e só. Em respeito à Oneworld, os clientes podem obter pontos qualificáveis voando exclusivamente com as parceiras sem voar um trecho sequer com a American Airlines, a representante norte-americana da aliança.

Entretanto, o Fidelidade foi além: adicione-se ao gasto mínimo uma quantidade mínima de pontos qualificáveis voados exclusivamente com a LATAM ou comercializados (vendidos) pela LATAM (no site, call center etc.). Além disso, a qualificação por trecho foi eliminada.

Para saber a quantidade de pontos qualificáveis a serem obtidos, é necessário pegar o valor nu do bilhete, excluindo todas as rubricas incidentais – taxas aeroportuárias, bagagens etc. A partir daí deve ser usado um multiplicador, independentemente do status do passageiro no programa.

Os voos domésticos tem o multiplicador de 2,5 pontos por real gasto e os internacionais, 6 pontos por dólar gasto.

Vamos ver como ficam as coisas:

Depois de fazer as contas, eu juro que conferi com um amigo para saber se elas estavam certas. O status Sapphire na OW (Platinum) pode ser obtido no AAdvantage por USD 6.000. Aqui, com nossa renda e condições econômicas, sai por USD 5.000. Agora, o Emerald no AAdvantage sai por USD 12.000 e aqui por incríveis USD 16.667 com o dólar a R$ 4,00.

Eu tenho comigo que eles tentaram imitar a Delta e a United, que subiram o gasto mínimo do nível elite mais alto para USD 15.000 – mas isso é pura especulação de minha parte.

Esses valores são completamente fora de qualquer razoabilidade diante do que a companhia oferece. Como bem me lembrou meu querido amigo Alexandre, a LATAM sequer tem lounges domésticos! A executiva dos B777-300ER e dos B767 não são competitivas e há concorrência poderosa tanto para a América do Norte como para a Europa. Quem vai pagar R$ 10.000,00 para ir para Paris na executiva da LATAM quando pode pagar a mesma coisa com a Air France? Com a AA ou Avianca Brasil para os EUA? Com a SWISS, a Turkish, a KLM, a Lufthansa para a Europa?

A LATAM só é opção única para a Oceania e, mesmo assim, nada impede que se emita um bilhete com milhas até Santiago e, de lá, voe com a Qantas para a Austrália/Nova Zelândia, caso os preços sejam equivalentes.

Enfim, há cinco observações iniciais que gostaria de fazer:

(a) o pessoal do Fidelidade acha que o brasileiro tem a mesma renda do americano;

(b) a alteração é só para o Brasil. O Chile, por exemplo, não foi afetado com as mudanças (pelo menos, até agora);

(c) os mais prejudicados, sem dúvida, são os passageiros das pontes aéreas que compram passagens com antecedência. Conheço gente que vai a São Paulo toda semana e provavelmente não qualificarão nem para Black - há férias, recesso de fim de ano, feriados etc que influem nessa conta final. Seriam  necessários gastos mínimos  mensais R$ 3.000,00 e alguma coisa  para Black e R$ 5.000,00 e pouco para Black Signature;

(d) a empresa bate cabeça: há um ano, diminuíram os requisitos para Platinum para atingir o segmento corporativo que, inexplicavelmente, será o mais atingido com as mudanças por conta da eliminação da qualificação por trechos; e

(e) é mais fácil obter status Sapphire ou Emerald com o AAdvantage do que com o LATAM Fidelidade (é inacreditável que eu esteja escrevendo isso).

O objetivo do Fidelidade é claro: reduzir drasticamente os clientes premium porque lowcost não tem programa de milhas importante. Sim, acredito que a LATAM queira se transformar numa lowcost para competir com o que ela acredita que vai acontecer aqui em breve – a abertura do mercado para empresas estrangeiras.

Com essa nova política de obtenção de status, muitos passageiros vão preferir outras companhias porque simplesmente não terão qualquer vantagem voando LATAM. Com o Smiles, sequer é necessário voar: basta transferir 300.000 pontos/ano para ser Diamante e ter uma série de benefícios em voos domésticos.

A Oneworld

Daí vem uma indagação: e como fica a Oneworld nisso? Afinal, a LATAM é a empresa parceira exclusiva no mercado da América do Sul. Gente, isso é muita coisa! A Oneworld vai simplesmente aceitar a migração dos clientes para outras alianças ou empresas?

Afinal, nós sabemos que no mercado doméstico a LATAM não tem sido um exemplo a ser seguido. A GOL, a Azul e a Avianca prestam serviços melhores – em alguns aspectos, infinitamente melhores.

Quem quer ter status máximo na Oneworld agora tem que se voltar para o AAdvantage, pois além do gasto mínimo ser menor, é possível consegui-lo a partir de um percentual sobre a distância voada.

É possível conseguir milhas qualificáveis na premium economy da British na mesmíssima proporção que na executiva.

Uma ida e volta do Rio para Londres na BA dá cerca de 11.400 milhas. Em premium economy/business isso dá USD 2.280 dólares qualificáveis + 17.100 milhas percorridas.

Com 6 viagens é possível alcançar as 100.000 milhas voadas. Fiz uma busca aleatória e é possível encontrar passagens  na premium economy da BA numa média de R$ 5.000,00. Logo, são necessários R$ 30.000,00/ano para ser Emerald via AAdvantage – menos da metade do que a LATAM está exigindo. É muito dinheiro, eu sei. Mas, pelo que conheço da Oneworld, essa me parece a alternativa mais barata nesse primeiro momento sem muita reflexão. Se alguém pensar em algo mais em conta, por favor, não hesite em divulgar nos comentários.

Enfim, as mudanças foram um balde de água fria na cabeça de muita gente. Eu mesma estava considerando voltar para o LATAM Fidelidade no ano que vem, mas não vou mais diante desses valores.

Além disso, a marca característica do LATAM Fidelidade é a instabilidade. Regras que mudam profundamente a cada dois anos. Desde que comecei o blog, há dois anos, creio que reportei duas grandes alterações e essa agora é a terceira.

Eu não sei quem cuida do Fidelidade. Essa equipe pode entender de números, lucros, acionistas etc. Mas parece ignorar o que é fidelização de clientes e a sua importância para a marca. Chega a ser irônico que o nome do programa seja justamente aquilo que parece menos importar para a empresa.